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Mia Couto

 Esse que em mim envelhece

assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo


Paulo Bomfim

  Ninguém tem culpa

Daquilo que não fomos!

Não houve erros,

Nem cálculos falhados

Sobre a estepe de papel.

Apenas,

Não somos os calculistas

Porém os calculados,

Não somos os desenhistas

Mas os desenhados,

Thiago de Mello

 Cresci menino com Deus.

Minha mãe acho que foi
quem Deus pôs dentro de mim.
Dentro de mim, mas não meu.
Não foi um amigo de infância.
Não me deixava à vontade
(nem nos banhos escondidos
na fundura do meu rio).
Não me deixava ser eu,
ser livre: sua presença
— uma lâmina suspensa
constante na minha vida —
me dava um grande temor.
Não me envergonho em dizer
que nunca lhe tive amor.

Manoel de Barros

 Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Álvaro de Campos

 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.

É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo.

Mário Quintana

 Esta vida é uma estranha hospedaria,

De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia.

Carlos Drummond de Andrade

 Mas era apenas isso, era isso, mais nada?

Era só a batida numa porta fechada?

E ninguém respondendo, nenhum gesto de abrir:

era, sem fechadura, uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso uma noção de porta,

o projeto de abri-la sem haver outro lado?

O projeto de escuta à procura de som?

O responder que oferta o dom de uma recusa?

Como viver o mundo em termos de esperança?

E que palavra é essa que a vida não alcança?

Antônio Cícero

Não sei bem onde foi que me perdi; Talvez nem tenha me perdido mesmo; mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.

T.S. Eliot

Eis-me aqui, um velho em tempo de seca, Um velho numa casa onde sibila a ventania, Uma cabeça oca entre os vazios do espaço. No quarto escuro, não tenho fantasmas. Numa profusão de espelhos, que irá fazer a aranha? Interromper o seu bordado? Suponha agora que a história engendra muitos e ardilosos labirintos. Corredores e saídas, que ela seduz com sussurrantes ambições. Suponha agora que ela somente nos dá algo enquanto estamos distraídos. E dá tarde demais. Suponha que nem medo nem audácia aqui nos salvem. Enfim suponha que não dei à toa esse espetáculo E nem o fiz por nenhuma instigação de demônios ancestrais. Quanto a isto, é com franqueza o que vou te dizer: Eu, que perto de teu coração estive, daí fui apartado. Perdi visão, olfato, gosto, tato e audição: Como agora utilizá-los para de ti me aproximar? (tradução: Ivan Junqueira)* *edição: José Claisson Aléssio

Paulo Bomfim

Eu sou aquele menino que o tempo foi devorando, na rotina dos sapatos. Mãos afagando lembranças, olhos fitos no horizonte à espera de outras manhãs. Aí paletós, aí gravatas, aí cansadas cerimônias, aí rituais de espera-morte! Quem me devolve o menino sem estes passos solenes, Sem pensamentos grisalhos, sem o sorriso cansado! ***** Passarei porque sou feito de filamentos do tempo. Sumirei dos corações, de lembranças, de registros, de improváveis certidões, Irei como quem chegou, ou melhor, nunca nasceu; Nem lembranças figuradas, obrigações de saudade ou graça que se transmite. Passarei por vosso mundo sem indícios de endereço, sem vestígios, no avesso de vossas almas! ***** ... Mas deixai-me poetar em nome dos que não sonham, dos que calçam desespero, dos fugitivos, dos vencidos, dos inocentes que esperam. - Que eu cante a vida que passa e os destinos sem destino, e meus versos sejam potros onde as crianças galopem. Sou feito de tudo e nada. ... Mas deixai-me poetar! edição: José Claisson Aléssio

Charles Bukowski

 Esperando pela morte

como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

Mário Quintana

Agora não sei esperar mais nada Desta nem da outra vida. No entanto O menino (que não sei como insiste em não morrer em mim) ainda e sempre apesar de tudo apesar de todas as desesperanças, o menino às vezes segreda-me baixinho “Titio, quem sabe?...” Ah, meu Deus, essas crianças!

Jorge Luís Borges

“Quando menino, eu temia que o espelho me mostrasse outro rosto
 Ou uma cega máscara impessoal que ocultaria algo na certa atroz.
 Temi também que o silencioso tempo do espelho se desviasse do curso cotidiano,
 dos horários do homem e hospedasse em seu vago extremo imaginário,
 seres e formas e matizes novos.
 (Não disse isso a ninguém, menino tímido.)
 Agora temo que o espelho encerre o verdadeiro rosto de minha alma,
 Lastimada de sombras e de culpas, o que Deus vê e talvez vejam os homens.” 

                                          *****

 Sou apenas a sombra que projetam essas íntimas sombras intrincadas.
 Sou sua memória, e sou também o outro que, como Dante e os homens todos, já esteve no raro paraíso.
 E nos muitos infernos necessários.
 Sou o que não conhece outro consolo que recordar o tempo da ventura.
 Às vezes sou a ventura imerecida. Sou o que sabe não passar de um eco,
 O que anseia morrer inteiramente.
 Sou talvez o que tu és no sonho.


 Edição de texto: José Claisson Aléssio 

Lindolf Bell

 Depois de tudo minha casa permanecerá nos fundos, 

minguantes novos, cidades mortas, ruas desconhecidas, 

barcos de vento, perdidos sons

foi lá que brinquei de longe e perdi-me de mim

foi lá a primeira tosquia quando me tiraram tudo

nem o leque para afugentar a maturação

nem a haste para defender-me das feras

nem o silêncio para vestir-me no esquecimento

depois de tudo minha casa permanecerá nos fundos

foi lá que brinquei de longe e me perdi de mim

Edição: José Claisson Aléssio 

Ivan Junqueira

 Atrás daquela montanha

tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.
Porém, se atrás daquela
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.



Maria do Rosário Pedreira


Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer — que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe.

 Ainda bem que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno.

Pablo Neruda

Quem fui? O que fui? O que fomos?
 Não há resposta. Passamos. Não fomos. Éramos.
 Outros pés, outras mãos, outros olhos.
 Tudo foi mudando folha por folha, na árvore.
 E em ti? Mudou a tua pele, o teu cabelo, a tua memória.

 Aquele que não foste.
 Aquele foi um menino que passou correndo atrás de um rio, de uma bicicleta, e com o movimento foi-se a tua vida com aquele minuto.

 A falsa identidade seguiu os teus passos.
 Dia a dia as horas se amarraram, mas tu já não foste,
 veio o outro, o outro tu, e o outro até que foste,
 até que te arrancaste do próprio passageiro,
 do trem, dos vagões da vida, da substituição, do caminhante.

 A máscara do menino foi mudando,
 emagreceu a sua condição enfermiça,
 aquietou-se o seu volúvel poderio:
o esqueleto se manteve firme,
 a construção do osso se manteve,
 o sorriso, o passo, o gesto voador,
 o eco daquele menino nu que saiu de um relâmpago,
 mas foi o crescimento como um traje!

 Era outro o homem e o levou emprestado.
 Assim aconteceu comigo.
 De silveste cheguei a cidade, a gás, a rostos cruéis
 que mediram a minha luz e a minha estatura,
 cheguei a mulheres que em mim se procuraram
 como se a mim tivessem perdido,
 até que nada foi como tinha sido,
 e de repente apareceu no meu rosto um rosto de estrangeiro
 e era também eu mesmo:
 era eu que crescia, era tu que crescias, era tudo,
 e mudamos e nunca mais soubemos quem éramos,
 e às vezes recordamos aquele que viveu em nós e lhe pedimos algo,
 talvez que se recorde de nós, que saiba pelo menos que fomos ele,
 que falamos com a sua língua,
 mas das horas consumidas aquele nos olha e não nos reconhece.

 Edição: José Claisson Aléssio 

Olinda Beja

 Na minha terra há um rio

que nunca vai ter ao mar
trago-o eu dentro do peito
e o meu corpo é o seu leito
onde ele se pode espraiar

na minha terra há um pranto
de uma mãe que o não secou
escorre nas minhas veias
como o mar por entre as areias
que o oceano afundou

na minha terra há um porto
com barcos por atracar
as amarras trago-as eu
no destino que me deu
outro porto p'ra embarcar

na minha terra há um mundo
diferente deste onde estou
mas não o trago comigo
ficou para meu castigo
no mundo em que não estou


*****

Tenho uma ilha por dentro de mim
cheia de corais e praias sem fim
que chora e repete na longa distância
os dias e as horas que me deu na infância
tenho as canoas correndo na alma
e bebo em orgias vinho de palma
na roça à noite varrendo o terreiro
eu falo e discuto com piadô feiticeiro
santo é o seu nome e santa é a gente
que as ilhas povoam bendito o seu ventre
tenho uma ilha por dentro de mim
cheia de floresta   de mato   capim
que chora e repete no porto de abrigo
os dias e as horas que eu trouxe comigo



Fernando Pessoa

 A aranha do meu destino

Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

Florbela Espanca

 Não acredito em nada. As minhas crenças

Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!