Fábio Hernandez

 Olho para minha estante e apanho um livro antigo.

É um livro de um escritor barato, e está no meio de romances de escritores nada baratos. Dostoievski e Tolstoi, Balzac e Flaubert, Hemingway e Fitzgerald, Machado e Eça, Roth e Updike, Chandler e Hammett, Garcia Marques e Vargas Llosa.
É um livro simples, banal, tolo.
Mas eu o amo, e ele sobrevive às limpezas periódicas de livros em minha biblioteca. O nome é Verão de 42, escrito por um certo Herman Raucher, e inspirou um filme tão bonito quanto o livro, e isso é raro.
A trilha sonora, um piano lírico, melodioso, lento, triste, é uma das mais belas do cinema.
Um cara retorna ao lugar em que passou o verão de sua vida, uma praia.
Essa a história.
O narrador lembra aqueles dias ensolarados, aqueles tempos de descobertas e transformação que a gente vive apenas aos quinze anos. Vou direto ao final. Quero reler as últimas linhas ainda uma vez.

Mia Couto

 Esse que em mim envelhece

assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo


Paulo Diniz

 Vou-me embora

Vou-me embora
Nada aqui me resta
Senão a dor contida
Num adeus sem festa.

Quem disse que trazia
Até hoje não trouxe
O bem de se fazer
da vida amarga, doce.

Vou-me embora
Vou-me embora
Caminhos que me levam
Não têm Sul nem Norte
Mas meu andar é firme
E meu anseio é forte
Ou eu encanto a vida
Ou desencanto a morte...


Nós que nos amávamos tanto

 O filme Nós que nos amávamos tanto conta a história de três amigos, Antonio, Gianni e Nicola, que lutaram juntos na resistência italiana no fim da segunda guerra.  A trama se desenvolve a partir dos reencontros e desencontros, dos caminhos seguidos por cada personagem.

  Antonio, por causa das suas crenças políticas, sempre ocupa posições subalternas no hospital em que trabalha; Nicola nunca consegue se tornar um intelectual respeitado; Gianni não encontra caminhos para se tornar um advogado capaz de defender aquilo que acredita.

Enquanto Antonio e Nicola mantêm uma dignidade respeitosa consigo mesmos, sem renegar aquilo que acreditavam, Gianni opta por outro caminho, renunciando a seus projetos. Tudo aquilo que acreditava é abandonado, inclusive seu antigo laço de amizade com os dois. Ele deixa também seu grande amor, em suma abandona a si próprio. Esta renúncia acaba cobrando um preço alto demais.

 Cada vez mais ressentido, Gianni se transforma numa figura trágica, isolado, completamente solitário.

Paulo Bomfim

  Ninguém tem culpa

Daquilo que não fomos!

Não houve erros,

Nem cálculos falhados

Sobre a estepe de papel.

Apenas,

Não somos os calculistas

Porém os calculados,

Não somos os desenhistas

Mas os desenhados,

Antônio Callado

      O amigo do homem desaparecido se aproximou da janela do seu apartamento tendo na mão o livro que o desaparecido dedicara a ele: “Para você, meu grande amigo”.

    O amigo olhou lá fora o mar que ia além da praia e que flambava ao sol do meio-dia. Curioso como ele tinha desaparecido de forma tão absoluta. Evaporou-se.

   Soube-se depois da sua morte que ele passara os últimos  anos de vida num lugarejo chamado Figueira Aléssio. Ninguém sabia ao certo de que modo morrera.

    “Quando parou no fim da linha o homem que ia desaparecer saltou e foi andando para a pequena casa em que morou sua família.

   Olhou-a por algum tempo e, ao percebê-la vazia, adentrou-a e revisitou seus cômodos.

   O homem que desapareceu saiu da casa,  fechou sem ruído a porta, passou em silêncio pelo portão de tábuas brancas e se foi. Como um ladrão." 

Sobre o conto Prisão Azul, edição de José  Aléssio

Manchester `a beira mar

  Entro na livraria e pasmo: duas mesas, longas, cheias, com títulos que se repetem. A lista é exaustiva mas exaustão é preciso: "Como Viver sem Ansiedade"; "Livre de Ansiedade"; "As 10 Melhores Técnicas para Vencer a Ansiedade" etc., etc.

Depois, os dramas sobem de tom: "Cure os Seus Medos"; "As Regras Essenciais para Viver sem Medo"; "Como Parar o Envelhecimento"; "A Dieta Anti-idade" etc., etc.
Finalmente, e após todas as tormentas, o santo graal: "Pequenos Passos para a Imortalidade"; "Curar para a Imortalidade"; "A Promessa de Imortalidade" etc., etc.

      A moda não começou hoje. Mas só hoje reparei na moda. Duas conclusões. A primeira é que a nossa sociedade já não admite certos traços da condição humana que os nossos antepassados compreendiam e com os quais conviviam do berço até a cova. Ansiedade. Medo. Velhice. Mortalidade.

     A história da literatura, desde Homero, é um catálogo desse rio permanente. Hoje, é uma mancha que estraga a "euforia perpétua", como a chamou Pascal Bruckner, e que humilha os seus sofredores.

     Amigos meus, ansiosos, não sofrem apenas de ansiedade. Eles sofrem com a ansiedade de terem ansiedade. Eles têm medo de terem medo. Eles olham para a velhice e para a morte como os homens primitivos olhavam para trovões e tempestades.

Thiago de Mello

 Cresci menino com Deus.

Minha mãe acho que foi
quem Deus pôs dentro de mim.
Dentro de mim, mas não meu.
Não foi um amigo de infância.
Não me deixava à vontade
(nem nos banhos escondidos
na fundura do meu rio).
Não me deixava ser eu,
ser livre: sua presença
— uma lâmina suspensa
constante na minha vida —
me dava um grande temor.
Não me envergonho em dizer
que nunca lhe tive amor.

Marta Rebón

Freud dizia que as palavras e a magia foram no princípio a mesma coisa. É por isso que continuamos procurando refúgio nos livros quando a vida nos prega uma brincadeira estúpida? Você, passageiro em momentos ruins, abre um romance e em suas páginas encontra algo parecido a um bote salva-vidas, um alívio balsâmico ao desassossego. Os leitores vorazes sabem bem que as bibliotecas e as livrarias são uma panaceia eficaz à alma, como já se afirmava na Antiguidade. A ficção e a poesia, afirma a romancista Jeanette Winterson, são remédios que curam a ruptura que a realidade provoca em nossa imaginação. Como diz a máxima horaciana dulce et utile, nos ensinam prazerosamente. O eco das palavras, seu ritmo, e as imagens com uma grande carga emocional inundam e ativam os recônditos de nossa consciência. Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável. Entre os benefícios de se ler ficção, o primeiro, por mais óbvio que pareça, é chegar a nos conhecer melhor. Proust, a quem hoje poucos negarão sua aptidão à ciência cognitiva, afirmava que cada leitor, quando lê, é o próprio leitor de si mesmo. Acrescentava que a obra do escritor não é mais do que uma espécie de instrumento ótico que este oferece ao outro para permitir-lhe discernir o que, sem esse livro, não seria capaz de ver por si mesmo. Entrar no universo dos romances é viver múltiplas vidas. Com um livro nas mãos se abre diante de nós um terreno para a experimentação de inúmeras circunstâncias. A biblioterapia é possível graças ao choque de identificação que se produz no leitor quando se vê refletido na história. Sentimos empatia por outras pessoas, outras formas de pensar. A leitura, além disso, é uma aventura intelectual trepidante. Para o Nobel de Literatura André Gide, ler um escritor não é só ter uma ideia do que ele diz, mas viajar com ele. Ler nos coloca em um espaço intermediário: ao mesmo tempo em que deixamos em suspenso nosso eu, nos conecta com nossa essência mais íntima, um bem valioso para se manter certo equilíbrio nesses tempos de distração. A leitura, dizia María Zambrano, nos brinda com um silêncio que é um antídoto ao barulho que nos rodeia. Ela nos procura um estado prazeroso semelhante ao da meditação e nos traz os mesmos benefícios que o relaxamento profundo. Ao abrir um livro conquistamos novas perspectivas, pois a ficção divide com a vida sua essência ambígua e multifacetada. Uma vez que só podemos ler um número limitado de títulos, o que procuramos? Obras que reafirmem nossas crenças, ou façam com que essas balancem? Para Kafka era muito claro, só deveríamos nos adentrar nas obras que incomodam: “Um livro precisa ser um machado que abre um buraco no mar gelado de nosso interior”.

João Carlos Teixeira

 Deu-me um deus de legado o tempo escasso

e o anseio de retê-lo em urdiduras.
Murcham flores nos campos porque passo
exilado em angústias já maduras.

O que sou não sei bem, nem o que faço.
Débil luz entrevejo nas clausuras
das fatais emoções em que desfaço
a antiga vocação das coisas puras.

Viajante que perdeu os seus roteiros
por querê-los é que ando em desatino
sob o cerco de demônios traiçoeiros.

Nau fendida que busca o porto vasto,
quanto mais de meus rumos me aproximo
mais sinto que de mim próprio me afasto.