Manoel de Barros

 Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Álvaro de Campos

 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.

É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo.

Florbela Espanca

 Anda um triste fantasma atrás de mim

Segue-me os passos sempre! Aonde eu for,
Lá vai comigo…E é sempre, sempre assim
Como um fiel cão seguindo o seu Senhor!

Tem o verde dos sonhos transcendentes,
A ternura bem roxa das verbenas,
A ironia purpúrea dos poentes,
E tem também a cor das minhas penas!

Ri sempre quando eu choro, e se me deito,
Lá vai ele deitar-se ao pé do leito,
Embora eu lhe suplique:Faz-me a graça

De me deixares uma hora ser feliz!
Deixa-me em paz!…” Mas ele, sempre diz:
“Não te posso deixar, sou a Desgraça!”

Mário Quintana

 Esta vida é uma estranha hospedaria,

De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia.

Cartola

Deixe-me ir Preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar Quero assistir ao sol nascer Ver as águas dos rios correr Ouvir os pássaros cantar Eu quero nascer Quero viver Deixe-me ir Preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar Se alguém por mim perguntar Diga que eu só vou voltar Depois que me encontrar

Jorge Timossi

 Uma vez no labirinto, chegou um momento em que tive a impressão de que cruzava repetidamente comigo mesmo, de que eu era o outro, dentro e fora de mim, até que, desconcertado, escolhi ficar um instante quieto num ponto, talvez assim pudesse recuperar meus sentidos, e foi então que me vi, com espanto, passar por outro dos caminhos equivocados e sem saída.




Sérgio Augusto

 Isto não é um diário, mas poderia ser. Então recomeço: domingo, 30 de abril, final de tarde. Ao chegar à pág. 282 de A Oeste do Éden, sou surpreendido por um furo do site do Daily News: Jean Stein, a autora do livro, acabara de se suicidar. Autor morto a gente costuma ler até mais do que os vivos, mas naquelas circunstâncias e com o corpo ainda no necrotério nunca me havia acontecido. Pelos meus cálculos, fazia apenas cinco horas que Jean se jogara do 15.º andar do prédio em que morava, na Gracie Square, em Manhattan.


Foi uma experiência bizarra, perturbadora, que levei um dia para metabolizar. Noves fora o fato de ter gostado imensamente do livro e admirar a autora, ela se matara como Mary Jennifer, a protagonista do penúltimo capítulo de A Oeste do Éden, justo o que estava a ler na tarde de domingo. Em maio de 1976, a jovem e bipolar filha da atriz Jennifer Jones atirou-se do 22.º andar de um prédio de Westwood, em Los Angeles. Coincidência demais.

Mesmo que eu estivesse lendo O Velho e o Mar em 2 de julho de 1961, quando Hemingway estourou os miolos, o impacto teria sido diferente. Suicídios perpassavam as narrativas de Adeus às Armas e Por Quem os Sinos Dobram, mas Santiago, o pescador de O Velho e o Mar, não dava cabo da própria vida. Além disso, fazia então um bom tempo que não abria um livro de Hemingway, interregno só interrompido quando lançaram o póstumo Paris É Uma Festa.
Se eu estivesse lendo Sylvia Plath no dia (11 de fevereiro de 1963) em que ela vedou as portas e ligou o gás da cozinha, bem, naquela época a desconhecia por completo. Conheci e admirava Ana Cristina César, mas em 29 de outubro de 1983, quando ela, à maneira de Jean Stein, atirou-se do alto de um prédio em Copacabana, eu estava viajando, sem um escasso verso dela na bagagem.


David Foster Wallace renderia comparação mais conveniente. Eu podia estar lendo Infinite Jester em 12 de setembro de 2008 (a tradução brasileira, Graça Infinita, épica façanha de Caetano W. Galindo, ainda não existia), ou seja, no dia em que o autor se enforcou no quintal de sua casa e sem dúvida teria ficado impressionado se já tivesse passado ou estivesse passando pela pág. 227, onde a personagem Koelle, vê-se tentada a enforcar-se com uma corda.
Suicídios são contagiantes, pesquisas confiáveis o demonstram. Werther foi um vírus espiritual, no século 18. Ao ser informada do suicídio de Sylvia Plath, a também poeta Anne Sexton ficou paralisada e balbuciou: “Eu deveria ter morrido no lugar dela” (tradução livre de “That death was mine”). Onze anos depois, envolta num casaco de pele herdado da mãe, Sexton trancou-se na garagem da casa, ligou a ignição do carro e enfim consumou o ato que outras vezes resultara infrutífero.

Como todos os citados, Jean Stein sofria de depressão em alto grau. Não era uma imagem woolfiana a que ela projetava publicamente. Jamais a imaginaria enchendo de pedras os bolsos do casaco e deixando-se arrastar pelas águas do Hudson ou do East River, muito menos se jogando de um edifício, uma das formas mais espalhafatosas de pôr termo à vida. Seu livro - história oral de cinco clãs que enriqueceram em Los Angeles e consolidaram a mitogonia hollywoodiana - é um vasto cemitério de canalhas, desajustados, deprimidos e suicidas, a maior parte criada em berço de ouro. Quem disse que dinheiro não traz infelicidade?

Jules C. Stein, pai de Jean, morreu podre de rico. Não como oftalmologista, seu métier inicial, mas como fundador e coproprietário da monopolista MCA (Music Corporation of America). Seu sócio, Lew Wasserman, vivia metido com gângsteres e enfartou com gritos histéricos um de seus subordinados na MCA. Não bastasse, foi quem mais estimulou Ronald Reagan a trocar o show business pela política.

Os Steins viviam numa mansão cercada por muros e jardins em Beverly Hills, que tinha nome romântico, Misty Mountain, e hospedou muitas histórias glamourosas e outras quase grotescas, frequentemente estreladas pelos pileques de Doris Stein, pelo descrito, uma bruaca, muito ligada à odiosa mãe de Gore Vidal, outra tremenda pinguça. No funeral do patriarca da família, Doris barrou a secretária e amante do finado, que teve de assistir à cerimônia trepada numa árvore, como a faulkneriana Caddy Compson no começo de O Som e a Fúria.

“Quero morrer num jardim entre muros”, confessa Jean no último capítulo de seu livro, aludindo, obviamente, a Misty Mountain, para ela, o éden sobre a Terra. Tarde demais; seu destino era a selva de concreto. Sua alma cosmopolita levou-a a Wellesley, Sorbonne, ao jornalismo cultural (coeditou Paris Review com George Plimpton e Grand Street sozinha), teve um caso com William Faulkner, que tinha idade para ser seu pai. Reinava em Nova York como uma das maiores anfitriãs de intelectuais e artistas da Costa Leste. Foi numa de suas badaladíssimas festas que Gore Vidal e Norman Mailer se engalfinharam verbalmente em público pela primeira vez.

Imaginava-a uma Nora Ephron mais séria ou uma Renata Adler mais leve, não uma angustiada sobrevivente - de que mundo, exatamente, não sei, mas que ele, se não acabou, está no finzinho, como o nosso.

Elton Medeiros

Chora
Põe o coração na mesa
Chora
Tua secular tristeza.

Tira o teu coração da lama
E chora
A dor santa e a dor profana
Que Deus protege a quem chora
Por toda tristeza humana

O homem é sempre só
O fim é sempre pó
Ninguém foge do nó
Que um dia a vida faz

Por isso chora em paz
Que a lágrima que cai
É a ponte entre mais nada
E outra vida mais


Mia Couto

Ele escreve versos! Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha. — Há antecedentes na família? — Desculpe doutor? O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias: — Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol. Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor. Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito. — São meus versos, sim. O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto? Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado. — O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica. Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar. Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino: — Dói-te alguma coisa? —Dói-me a vida, doutor. O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo: — E o que fazes quando te assaltam essas dores? — O que melhor sei fazer, excelência. — E o que é? — É sonhar. Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe. O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu: — Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica. A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente. Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu. — Não continuas a escrever? — Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio. O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente. — Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços. — Não importa — respondeu o doutor. Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu. Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios: — Não pare, meu filho. Continue lendo…

Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora De desalento , de desencanto Fecha meu livro se por agora Não tens motivo algum de pranto Meu verso é sangue , volúpia ardente Tristeza esparsa , remorso vão Dói-me nas veias amargo e quente Cai gota à gota do coração. E nesses versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre Deixando um acre sabor na boca Eu faço versos como quem morre. Qualquer forma de amor vale a pena!! Qualquer forma de amor vale amar!