Edição de texto: José Claisson Aléssio
Gosto de cereja
Gosto de Cereja ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1997.
Ele conta a estória de um cidadão de classe-média em seus 50 anos que perambula pelos arredores de Teerã em busca de alguém que possa enterrá-lo depois de se suicidar.
“Você vai ao buraco às seis horas da manhã e chama o meu nome duas vezes. Se eu responder você me dá a mão para sair, se não, você joga vinte pás de terra em cima”.
O roteiro do filme é construído como uma espécie de parábola, onde cada um dos personagens representa algo maior, uma ideia, uma classe e até uma determinada moral. Um soldado curdo, um seminarista afegão e um taxidermista turco são os três personagens que entram no carro de Badií.
Badií é um homem amargurado e quer morrer. Esta é provavelmente a única certeza que temos o filme inteiro. Não sabemos quem ele é, nem os motivos que o levam a optar pelo suicídio. Em uma conversa com o seminarista afegão, ele fala que seu sofrimento acaba causando sofrimento aos outros, e este é o máximo que conseguimos extrair de seus sentimentos. Badií passa quase o filme inteiro nas periferias da cidade, lugar montanhoso e árido, procurando alguém disposto ao serviço.
No caminho, eles debatem sobre as questões do suicídio: o seminarista defende que Deus nos dá o corpo, e que se matar é o mesmo que matar a qualquer outra pessoa; entretanto, Badií argumenta que sua infelicidade também afetava os outros, e causar sofrimento também é pecado. O seminarista entende o ponto de vista de Badií, mas rejeita o serviço por ser contra as leis do Corão.
Badií acaba encontrando alguém que aceita o serviço. Mesmo assim, ele ainda tenta convencê-lo de diversas maneiras a não se matar.
A fotografia da região montanhosa dos arredores da cidade impressiona. A edição também, por conferir um ritmo lento ao filme. Sentimos o tempo passar vagarosamente, como o peso de um eterno último dia. Narrativamente o filme também inova, já que é um road movie onde o personagem roda, roda, e não chega à lugar algum. Se este é ou não é a obra-prima do diretor, cabe a cada um dar sua opinião (opinião que provavelmente resultará da cena final), mas como o próprio Kiarostami disse, a proposta do filme é nos fazer pensar e, ao menos neste aspecto, ele é bem sucedido.