Paris, Texas

 Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1984, Paris,Texas traz a essência de um “Road Movie”, mesclado com um tom melancólico. Começa abordando a vida de Travis Henderson, que, após ficar mais de quatro anos desaparecido, é achado vagando sem rumo pelo deserto. Seu irmão, Walt Henderson, fica incumbido de ir ao encontro de Travis para trazê-lo de volta a sua casa. Aos poucos Travis vai recuperando sua saúde mental e física e tem a difícil missão de reatar o laço com seu filho pequeno, Hunter, que tinha abandonado após desaparecer. Hunter não fora somente abandonado pelo pai, sua mãe também decidira por deixá-lo aos cuidados de Walt e sua esposa. A trama ganhará sua essência quando Travis decide reencontrar Jane, sua esposa, junto com seu filho.

O início do longa é marcada pelo ritmo lento, onde serão explorados todos os nuances que acabam por reger esse aparecimento misterioso de Travis do meio do nada. Todas as suas motivações, assim como a de seu irmão, são suprimidas do espectador, nos deixando tão perdidos quanto Travis aparenta estar. Travis parece ter perdido sua sociabilidade, agindo de forma desconexa e não pronunciando uma única palavra.

Essa carga misteriosa do protagonista é transmitida até nós. Vamos nos habituando ao seu modo estranho de agir e ao seu tom silencioso. Esse silêncio propiciado pelo protagonista acaba se transmitindo para toda a atmosfera inicial do filme. Veremos unicamente a figura daquele clima escaldante do lugar e Walt tentando, sem sucesso, fazer o irmão dizer o que acontecia com ele.

O silêncio de Travis somente é quebrado quando ele encontra no irmão o esboço necessário de segurança do qual necessitava. Essa quebra do silêncio trabalha também por quebrar todo esse ritmo lento empreendido pelo filme. Seguiremos então na jornada de Travis e Walt de volta para casa. E com isso vemos emanar dos dois personagens toda a preocupação que essa volta de Travis para o lugar que abandonara outrora iria implicar na vida de todos.

O retorno do homem ao convívio social é facilitado pela recepção atenciosa da mulher de Walt. O filho de Travis parece um tanto quanto perdido pela situação, sem saber como agir diante daquilo. Hunter acaba nutrindo um esboço de raiva diante desse pai ausente. Esse esboço de raiva é atenuado pela simples falta de lembranças do menino pela figura desse pai. Walt e sua esposa passaram a ser mãe e pai do menino. O processo de aceitação de Hunter por essa nova figura de pai ocorre de maneira rápida e natural. Tanto Travis quanto Hunter encontram na inabilidade social o fio que lhes aproximam.

  Esse contato acolhedor com a família facilita que o homem recupere, em seu próprio ritmo, algo que escolhera deixar para trás quatro anos antes. E essa recuperação de sua saúde mental é evidenciada em uma das cenas mais simbólicas do filme, quando Travis atravessa uma ponte e encontra a figura de um homem completamente atormentado gritando coisas sem nexo. Travis se dá conta neste momento do que fora meses antes, vendo no homem uma espécie de espelho e se compadecendo disto. Medo e aversão surgem no protagonista. Aversão pelo que havia sido durante um fragmento de sua vida e medo de que isto não tenha se acabado por completo.

 A confusão intrínseca aos personagens, por diferentes motivos, acaba incitando os mesmos a encontrarem o elo perdido que talvez propicie o conforto necessário. Esse elo é a figura de Jane. Somente ela poderia providenciar essa recuperação do buraco na vida de Travis e Hunter.

O encontro de Travis e Jane é uma das cenas mais impactantes já feitas no cinema. Tudo que envolve a construção dessas cenas, separadas em dois momentos em um único ambiente, acaba arrepiando quem as assiste. A intensidade do filme, que até então era mais tranquila e suave, acaba se elevando consideravelmente. As conversas entre Jane e Travis, separadas por um espelho do o que aparenta ser uma casa de “strip-tease”, típico de cenas de interrogatórios policiais, onde só um lado consegue ter pleno acesso visual ao outro, são permeadas por um tom nostálgico inicialmente por parte do homem, já que a mulher não sabe com quem está falando.

Essa primeira conversa elenca no homem a terrível conclusão de que tudo que ele tinha planejado para este momento jamais poderia ser levado adiante. A figura do passado turbulento dos dois, regido pelo tom obsessivo de ambas as partes, acaba por regressar no cérebro do homem. Pela primeira vez, Travis se dá conta que ali se encontram dois seres incompatíveis e autodestrutivos quando juntos.

Já a segunda conversa, onde ocorre a revelação de Travis para Jane, é norteada por um tom completamente diferente. Ambos, diante do espelho limitador, passam por um processo catártico, despejando um sobre o outro todo o material reprimido durante esses quatro anos de separação.

Veremos finalmente o que motivou todas as ações do filme. Em um tom suave e melancólico, somos inundados do quão implacável é a figura do tempo e seus desmembramentos na vida que nos cerca. E toda essa cena só causa esse impacto em seu espectador devido à maneira genial na qual foi feita por seu diretor.‘Paris, Texas’ é a jornada de indivíduos buscando por sua identidade em meio a uma conjunção cruel de fatores. Um filme que vai lidar com pontos extremos do ser humano com uma sensibilidade comovente. Wim Wenders entrega a obra mais relevante de seu cinema, mostrando aqui todos os elementos que acabam por compor seus filmes. Toda a nostalgia presente em cada fragmento de cena traz um misto de tristeza e felicidade no próprio espectador, nos fazendo olhar para nossos próprios passos, atrás da construção de nossas identidades no mundo.

         Ricky Sanches